domingo, 1 de janeiro de 2017

O que 2016 me trouxe...

Não sou de fazer balanços anuais nem como as religiosas doze passas. Odeio passas e não tenho desejos para este ano. Entro livre e aterro neste ano com os dois pés, mais assentes que nunca.

"O medo cresce na nossa cabeça e alimenta-se da nossa vontade. Mostra-lhe o lugar que não tem. Sobrevive-lhe." Passaram quatro anos, não foi? Ainda sinto o calor do teu abraço depois daquela manhã de tensão. Um abraço sobrepõe-se a tudo o que nos falta. Ainda hoje... Acordei e percebi que não me falta nada. Não falta mesmo, vê bem. Tenho casa, tenho trabalho, tenho carro, viagens e passeios de fim de semana (enquanto tiver trabalho), tenho uma família que me adora e que eu amo, tenho a Cavalleria Rusticana como despertador,- sei que isto para ti não interessa nada mas quantos têm o gosto musical treinado para sequer conhecerem esta obra prima?-, vou rabiscando uns sei lá o quê como estes até que o alzheimer chegue devagarinho, pé ante pé, me toque de mansinho e meta a moedinha para me lavar o cérebro, amigos conto-os pelos dedos de uma mão e sobram-me. Felícia, mulher muito sapiente e dona de si, diria

- Amiga é a minha barriga e há-de doer!

não tenho nenhuma tarântula a quem tenha de dar justificações, não gasto dinheiro a dobrar no dia dos namorados. Celebro o amor que tenho à vida, pego na nela e vamos comemorar com um jantar romântico num lugar escolhido por mim, claro está. Ela informa-me que passa os dias satisfeita, portanto restringe-se apenas e só a fazer-me companhia. E eu gasto pouco dinheiro pois também pouco como. É uma experiência formidável, podes crer. Ocorreu-me no ano passado,- ainda me é estranho dizer isto- e resultou. Não houve discussões nem nenhum

- Oh meu deus, não devias ter gasto tanto dinheiro comigo.

Posto isto, onde é que eu ia? Ah sim! Como bem podes constatar nada me falta. Eu sabia que nada me faltava até lembrar que existia o teu abraço. Um abraço sobrepõe-se a tudo o que nos falta.

E a verdade é que não me faltaram abraços este ano, aqueles que dei e os que recebi. Inacreditavelmente na mesma proporção, porque quando damos um abraço nem sempre obtemos o retorno. Por vezes parece. Ia sendo ma na fondo. Os meus foram abraços de orgulho, de carinho, de gratidão, de amor, abraços que me teletransportaram por segundos, abraços que comprimiram o esqueleto e elevaram a alma.
Percebi finalmente que números não passam de estruturas ilusórias e recordo com orgulho as palavras da J.

- Sempre mas enquanto precisares de mim.

Foi assim que

- Encontramo-nos noutro sítio.

Nunca mais nos cruzámos. Só lhe queria dizer que esta foi uma das vitórias que marcaram o ano dois mil e dezasseis.

https://www.youtube.com/watch?v=eBGAxnp7xZw


C.V. 01/01/17

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Não há como fugir àquilo que nos encontra

A vontade expressa de não me querer exprimir
presa aos pensamentos ancorados que não me deixam ir.



A suposição e o mau entendimento foram reprimíveis engenhos que vieram baralhar tudo isto. Porque fomos passagens. Aqui não existes. Não preciso dos sentidos para sentir que existes pois todos os lugares te encontram em mim. E é raro o que te conheça.

20/07, C.V.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Já te disse que, numa luta, o orgulho não traz nenhum troféu?

Cortinas que escondem, encobrem, oprimem e petrificam. São as cortinas que fechas, em que te fechas e onde fechas os outros, às quais dás o nó mais apertado que consegues e ainda assim aquilo que tens medo de dizer a fugir por uma brecha difícil de achar, transformado num silêncio engenhoso. Engole o ar comprimido do teu quarto porque fechas a porta.
Porque te fechas.
Vamos perdendo a essência do diálogo e encontrando nas banalidades do quotidiano mais um ponto de ataque.
Já te disse que, numa luta, o orgulho não traz nenhum troféu?

C.V. 07/07

quinta-feira, 30 de junho de 2016

As mulheres têm fios desligados. Por António Lobo Antunes

Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Hoje dói, já não temos mãos para apanhar lágrimas de tantos choros. É quando pensamos na impossibilidade de acontecer que acaba enfim por acontecer. Não quero pensar no amanhã. Mas hoje dói.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

"O Grande Gatsby", F. Scott Fitzgerald

Sorriu compreensivamente- muito mais que compreensivamente. Era um daqueles sorrisos raros, com uma nota de confiança eterna, com que só nos deparamos umas quatro ou cinco vezes na vida. Encarava- ou parecia encarar- num único instante, o mundo eterno no seu todo, e depois concentrava-se em nós, com irresistível predilecção. Compreendía-nos até onde queríamos ser compreendidos, acreditava em nós como gostaríamos de acreditar em nós próprios, e assegurava-nos que tinha de nós aquela imagem que, nos nossos melhores momentos esperávamos projectar. Precisamente nesse ponto desaparecia- e eu contemplava um jovem vigoroso e elegante, um ou dois anos além dos trinta, cuja rebuscada formalidade no discurso por pouco não se afigurava absurda. Momentos antes de se apresentar, fiquei com a nítida impressão que escolhia as palavras com todo o cuidado.

domingo, 12 de junho de 2016

No dia em que estacionaste o carro na terceira fila a contar da entrada, sexto lugar a contar do fim, milésima vez que me evades o pensamento.
A tarde passou mais depressa que o habitual. Um casal francês tirava fotografias encaixando o rosto da sua metade. Treme daqui, treme dali, expressões semelhantes às fotografias que se tiram para renovar o cartão de cidadão, bilhete de identidade ou lá o que existisse na altura, ou àquelas tiradas aos prisioneiros que lhes antecedem a entrada para o retiro espiritual. Esta seria a estampa a enviar aos filhos
- Olha aqui a mãe com um ar tão sereno. Está de ótima aparência!
Até que o rebordo de um copo de imperial encostado aos lábios e um flash. Quando chegasse à terra, o amigo do peito
- Seu bêbedo! Andaste armado em fino...
- Não que a mulher não deixa.
- Como vai ela? Brilhou em território lusitano?
- Bebeu mais do que eu. Chegou para ofuscar a capital inteira.

C.V. 12/06

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Com vista a racionalizar todo o seu percurso e chegar ao âmago da questão, um deles balbuciava
- A S. Está cada vez mais triste. Onde foi que errámos, explicas-me? Estou um caco, sinto-me impotente e há três dias que não consigo pregar olho. Já te deste conta do abismo profundo em que ela vai cair? Onde estávamos nós? Onde estivemos nós este tempo todo?
De perna cruzada, ele abanava a cabeça. Ela detivera o olhar algures, na máquina do café, talvez, nas reminiscências da rapariga forte que fora a sua S.
- Quem diria
Não espero alcançar nem extrair, de modo algum, o que lhe desgasta os dias penosos e rastejantes. Insisti na procura de vocábulos que não fossem ferir susceptibilidades. Não obstante, queria ser objetiva e que eles entendessem o novelo que é projetado a cada passo dado em direção à sala das confissões, eufemismos à parte.
- O abismo está declarado, meus senhores. Lamento. Calma, paciência, compreensão, dedicação, conforto e amor. É tudo o que ela necessita, somente ainda não se encontra receptiva a tamanho impacto. Subtilezas que ela desconhece. Confiem ou não no que vos passo a dizer, a S. vive livremente aprisionada. Aqui não existe nenhum caos por decifrar.
Irreal, direis vós. Aqui dispo-me de preconceitos. A perfeição é uma utopia e remar até este estado consciente é uma glória.

C.V. "baú das memórias"

sábado, 4 de junho de 2016

Al Berto

Quando não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto, "Quando não estás"

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Que valsa é esta que me embala?

Que valsa é esta que me embala?
Arde-me na pausa que fala
E finda na cadência suspensa
De não haver nada no mundo que nos pertença,
Neste andamento que me seduz e cala.

Que partitura é esta que carrego?
Esconde-se nas horas mortas
E não sossego.
São semifusas que se fecham em copas,
Sortudo sou nesta vida a que me entrego.

C.V. 01/06

terça-feira, 31 de maio de 2016

Para onde quer que olhasse papel canela figurava o passadiço onde turistas cheios e sedentos de "souvenires" se debatiam entre si sobre o mais recente e inovador, acabadinho de sair do forno, mosaico português. As cartas estavam todas rasgadas à medida, intocáveis pelos pés dos passantes como se em volta existisse uma aura protetora. De perfil, os lábios carnudos não teciam dúvidas a respeito da sua identidade. A perder de vista, fruto de mãos agora trémulas, destroços de declarações profundas.
- Que fazes aqui com todas estas cartas?
- Olha, já a Clarice dizia: eu rasgo o verbo porque não posso rasgar o sujeito.

C.V. 31/05/16

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Capítulo quinto

Primeira noite de loucura, cai em mim uma febre ignora de te escrever. Cai em mim um desespero medonho de que fujo e foges, um impulso sôfrego que te traz e despeja nas entrelinhas de uma vida.
Por aqui os dias traduzem-se no costume. Conservam-se os bons modos de Amália, nódoa ingrata... A Ermelinda que acresce aos
- Bons dias D. Felícia
uma poderosa entoação num
- Como está o seu menino?
Confesso ainda não ter tido coragem para lhe dizer, numa abordagem imediata, já não te saber nem perto nem longe. E como se tamanho infortúnio não fosse suficiente, que dali por diante o possessivo encontrar-se-ia desenquadrado tal como o propósito da interrogação...

(...)

C.V. 10/15

domingo, 29 de maio de 2016

A 5 de Outubro

Tinhas acabado de secar as lágrimas, as primeiras que vi brotar dessas maravilhas cor de avelã. Debruço-me sobre o muro da praia para te ver chegar e, despropositadamente, fixas-me o olhar como se estivéssemos confiados ao destino. Calculas o quanto dói o impedimento de um olhar? Um olhar que se demora ele próprio a construir? Que requer uma explicação intraduzível, que te consome, que se apropria de ti? Existe maior verdade do que aquela que alcanças com o olhar?
Juro que te disse tudo o que queria dizer sem dizer nada. Aqui tens... É isto que preciso que saibas, que algures nascem sensações que só se adivinham com o coração.

C.V. 05/10/15

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Deu duas voltas à chave e abriu a porta. À entrada, Cardoso Miguel "o porteiro" já havia prevenido Amália de que a irmã não poderia andar bem.

- Até tremo quando penso na possibilidade daquela esgroviada sair à rua. Desculpe o termo mas nunca vi coisa semelhante. Parece uma selvagem, meu Deus! Passei a manhã a tentar decifrar o que mais tarde percebi ser o ruído de loiça a quebrar. Vá por mim, antes de ir domar a fera passe pela lojinha da Guilhermina "a taralhoca" e traga uns pratinhos de plástico para desenrascar. Ou passe o garfo e a faca pelo tacho, faça como quiser... Desculpe o riso incontido mas é inevitável, não consigo parar.

Cardoso Miguel "o porteiro" era um predilecto por cognomes e, por isso, todos os residentes do prédio, organizados na sua secretária de serviço por fotografia e por andar e do esquerdo para o direito, tinham o seu. Dizia ser uma coisa chique, carismática.

O acautelamento de Cardoso Miguel "o porteiro" que Amália julgou, por momentos, limitar-se a algo fictício pareceu-lhe mais real do que o que realmente esperava, depois de ter aberto a porta fazendo um ângulo de 45 graus. Digamos que o bastante para se ferir com os estilhaços de vidro que rodopiavam no corredor que seguia em direção à cozinha. Horrorizada, gritou pela irmã tentando sobrepôr a sua voz de cana rachada ao rebuliço sonoro envolvente.

- Onde andas tu? Oh mulher, olha que os funerais estão pela hora da morte e eu não tenho dinheiro para dispender assim do pé para a mão. Faz o favor de me avisar com a devida antecedência. É que o Cardoso Miguel "o porteiro" não é de se fiar e para além de quase me matares do coração ainda me destróis o pouco capital que me resta. Cautela, muita cautela! Maria Felícia, onde raio te meteste?!

Percorreu o andar de baixo sem que nenhum canto pudesse passar despercebido. Quando deu por si, com todo o alvoroço subjacente à situação, a extensa coleção de discos vinil pela qual tanta estima tinha Felícia estava agora desfeita.

- Agora é que a santinha colapsa, pensou.

(...)

- Não tenho nada que me prenda aqui, entendes?

- Como não tens? Eu estou aqui, sou sangue do teu sangue. Esta casa pertence-te. A Ermelinda do café todos os dias por ti pergunta, sente a tua falta. O bairro que com a tua ida se vai tornar mais monótono que a missa de domingo do padre Clemente. Porém, esquece a casa, esquece a Ermelinda, esquece o bairro e esquece o padre, que essa alminha não tem salvação possível. Caramba Felícia, sou tua irmã! A quem vou contar os meus dias, se te fores? Em que ombros irei pousar a cabeça quando me apetecer chorar e mandar tudo à fava? Nos do Cardoso Miguel "o presunçoso" quando ao entrar no prédio lhe fizer um aceno forçado?

(...)

- Levo as setecentas e trinta cartas. É o que me resta, é tudo o que tenho.

- Dizias, ao engano, que nada na vida te iria prender a nada. Olho para ti e tenho pena. Fazes-me lembrar o nosso avô quando foi exilado... Parece que o estou a ouvir

(-Não tenho outro remédio.)

E assim pareces tu.

(...)

Valerá assim tanto a pena pensar que cada acontecimento se dá por um motivo? O que é cada coisa ser o que é?

(...)

As rugas vincadas em torno dos seus olhos tornaram, ao contrário do que por vezes sucede com o passar do tempo, o seu rosto mais apetecível. Jamais Delfim se esquecera da silhueta em que outrora pôde privilegiar de um toque. Convicto como nunca, aproximou-se do muro onde, sentada e consciente, Felícia mirava o Tejo e onde, no seu ombro, a sua mão ganhou forma.

- És mesmo tu?

(...)

De tudo o mais que lhe foi surgindo ao longo da vida, e do pouco que eu soube, teria ficado uma marca que nem a própria conseguiu explicar.

- E eu, que dizia que nunca nada me iria me prender a nada, revejo toda a minha vida resumida naquele dia, naquela mão que acabou então por cruzar a minha.

C.V. 27/05/2016


sábado, 16 de abril de 2016

Pediu-me um café histericamente curto e ainda estou para saber como seria se vivessemos histericamente a vida. 

C.V. 16/03


quinta-feira, 31 de março de 2016

Já quis ser mar e fui terra

Já quis ser mar e fui terra,
Já fui tudo aquilo
que de uma alma se eleva,
e aterra
por o voo ser diretamente proporcional à queda.
Contento-me hoje com a aurora diária
e altiva é a minha comoção com a vida,
simples e precária,
porque nada mais espero
se não aquilo que só de mim espero
e até isso é hipotético e engano.
Agora? Nem mar nem terra!
Assim sou o extenso paredão
que segura e encerra.

C.V. 31/03/16

sábado, 26 de março de 2016

Com conta, peso e medida

De forma recorrente instalamos o nosso íntimo junto daqueles que nos cativam. Quando digo instalar trata-se disso mesmo, de uma instalação que abrange todo um conjunto de passos e leva o ser humano a uma plena liberdade de espírito para com o outro. Ser-me-ia agradável ao ouvido, a mim e a todos vós, dizer que as pessoas que se cativam mutuamente cumprem rigorosamente todos esses procedimentos. Procedimentos? Que vem a ser isso? Mais uma de muitas utopias, embora submersa na consciência de cada um.
A verdade é que a memória não me deixa mentir. Num mundo onde relações de todo o tipo de estabelecem num abrir e fechar de olhos, o seu inverso facilmente se dá. Porque a naturalidade com que se cria e descria o afeto, a compaixão, a amizade, a lealdade e outros sentidos tais me parece assombrosa, diria até desoladora. E por breve alheamento escuto algures Pessoa que sussurra "Dá-me vinho porque a vida é nada.". Não sei se o génio dos heterónimos estaria tão errado assim.
Retomando o desagrado questiono-me, tal como ontem, tal como amanhã e tal como nos dias precedentes e intermináveis. Porque as mesmas perguntas surgirão e não passarão disso mesmo, perguntas suspensas num antro de desrespeito e podridão sentimental. Porque damos, porque sorrimos, porque falamos e confiamos, porque sentimos, uns mais que outros, de forma mais ou menos calorosa. Porque gostamos, porque estaríamos dispostos a qualquer coisa. Porque adoramos. Porque cativamos e somos cativados. Porque caímos no desconhecido.

C.V. 26/03/16



terça-feira, 15 de março de 2016

António Lobo Antunes- Olhar para ontem

Não vale a pena falarmos, para quê, quanto mais falamos mais a gente se magoa um ao outro, fomo-nos distanciando tanto com o tempo, sinceramente nunca imaginei que isto acontecesse, não era assim ao princípio mas nunca é assim ao princípio, as coisas começam a correr mal devagarinho, não damos conta e nisto, de repente, tão longe um do outro, linguagens diferentes, falta de paciência, silêncios que magoam, frases a que não se responde, uma irritação surda, uma impaciência que se tenta disfarçar sem a conseguir disfarçar totalmente, um desconforto mudo mas presente, cada vez mais presente, uma espécie de enjoo, uma espécie de desgosto, o que faço aqui, o que fazes aqui, qual o motivo de continuarmos juntos se não faz sentido, qual o motivo de teimarmos ainda? Se ao menos houvesse alguma coisa que pudéssemos tentar, tu e eu, sentarmo-nos os dois no mesmo sofá, nem que não conversássemos, sentarmo-nos apenas, um ao lado do outro, tu a veres televisão, por exemplo, há aquela novela brasileira que gostas, e eu a olhar para ontem, sempre foi a minha especialidade, olhar para ontem, e permanecermos assim uma hora ou duas, em paz, pode ser que sejamos capazes de encontrar alguma paz, o que é que achas, não estou muito seguro disso mas sei lá, existem surpresas, voltarmos a habituar-nos um ao outro, devagarinho, e tirar prazer disso, pelo menos algum, ainda que pequeno, prazer disso ou, pelo menos, uma ausência de desprazer, o que já não seria mau, pergunto-me se ainda gostamos um do outro e, sinceramente, não conheço a resposta, penso que não, penso que sim, penso que um bocadinho, lá ao fundo, sob o tédio, o ressentimento, o cansaço, porque tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes, o Carlos, por exemplo, acha-te fascinante, o cretino
- A Amélia é fascinante
aquela tua amiga das saias curtas considera-me o máximo que bem lhe percebo nos olhos, fica de cigarro apagado, feita estátua, a mirar-me e não seria idiota tu inclinares-te para o Carlos e eu para a tua amiga, bastava passarem uns meses para nos fartarmos deles, tanto fascínio e tanta estátua cansam, e daí, quem sabe, não, deixemo-nos de fantasias, tanto fascínio e tanta estátua cansam mesmo, olhemos as coisas de frente, sem infantilidades, cansam mesmo, a questão importante, quer dizer, a única questão realmente importante, é saber se nos cansámos um do outro, do Carlos e da tua amiga podemos, ou não, ocupar-nos mais tarde, no que me diz respeito é não, no que te diz respeito suponho que também, e se a gente voltasse, ou antes, se a gente tentasse voltar a namorar, não sei se sou capaz, não sabes se és capaz, calculo eu, mas o que se perde em tentar, um namoro tímido, lento, envergonhado ao princípio mas que vai crescendo, crescendo, ainda não somos velhos, ainda não desistimos de ser felizes, pois não, o que te parece sermos felizes um com o outro, um beijo aqui, um beijo ali, uma palmadinha no rabo que, se calhar, excita, uma ida ao cinema, um fim de semana fora, num hotel qualquer perto do mar, se não for muito caro podemos, ouvir as ondas no escuro, da cama, enquanto nós, não faças essa cara, enquanto nós tal e coiso, há quantos meses nós não tal e coiso, nós não nada, tu de camisa de dormir transparente, eu, para variar, sem peúgas, se me permites uma confissão, perdoa ser atrevido, acho, como exprimir-me, acho que, não leves a mal, acho que continuo a, palavra de honra, amar-te, isto é a sério, não é da boca para fora, não é assim no ar, acho que continuo a amar-te e, desculpa a presunção, atrevo-me a pensar que continuas a amar-me, se estiver enganado não hesites em dizer que eu aguento, no ponto em que as coisas estão aguento tudo, mesmo esse telefone a tocar agora que não convinha nada que tocasse e tu
- Carlos
sem ouvires o que eu digo, tu, de olhos fechados
- Carlos
tu a sorrires sem ser para mim
- Quando?
tu
- Este fim de semana acho que posso, sim
tu
- Um hotel em Madrid adorava
tu
- O meu marido?
tu
- Há séculos que esse deixou de contar
tu
- A que horas?
tu
- Estou pronta às três
tu
- Buzina da rua que eu desço
tu
- Agora não posso falar muito
tu
- Às três horas tenho a mala à porta
e, se às três horas tens a mala à porta, talvez me possas fazer o favor de deixar escrito aí, num papel, o número da tua amiga das saias curtas que, de certeza, há-de gostar de acordar comigo em Barcelona.

quinta-feira, 10 de março de 2016

O estereótipo abominável

Acabo então por chegar a esta breve conclusão, a de que a vida é gerida por um destes dois fios condutores: necessidade ou hábito, a que podemos de igual forma denominar comodismo.

- C.M, P.4
A primeira criatura que me chama assim. Bom, ela sempre adorou irreverências. Pernas erguidas, oito lances de degraus, meia dúzia de engravatados com ar altivo. Bato à porta e o Esteves passa o cartão
- Olha! Outra pobrezinha... Esta juventude não vai de mal a pior, vai do pior ao execrável.
Miro-os a todos e de todos tenho pena, até do Esteves. Nem dinheiro tem para aparar o bigode. Pobre que é pobre partilha a pobreza e a entreajuda é coisa que se aprende desde pequeno. Dou um toque à J. e ela rapidamente resolve a questão, é limpinho.

A porta aberta antevia a conversa...
- Oh J., por cá?- como se nos tivéssemos cruzado por mero acaso.
- Pois então, como está a peste?
- Fantástica, não se nota? O mesmo não poderei dizer do Esteves... O raio do homem insiste em preservar aquele aspeto carrancudo.
- Só tu para me fazeres rir numa hora e sítio destes. Também insistes em preservar o teu bom sentido de humor!
- Vou fazendo por mantê-lo. Mas olhe que não é tarefa fácil, admito. Ainda não há menos que um quarto de hora aborreci-me com uma situação. Não me aborreci, fiquei desiludida. Sabe como funciona o mundo da linguagem tão bem quanto eu. Deveras chego a crer que se deveria começar a ensinar qualquer coisa como Dialetos Lusitanos ao invés do Português. Pense comigo: seria bem mais atrativo, dado que se iria somente dar continuidade a uma aprendizagem de uma disciplina que nunca existiu mas que inevitavelmente toda a gente absorveu. Não andarão os professores e o ministério equivocados nesta questão? Estaríamos a formar, claro está, ignorantes. Contudo, uns ignorantes felizes. Quem é feliz numa aula de português? Bom, o que eu ouvi foi o seguinte. Não importa de que boca imunda surgiu esta/este... (Não existem adjetivos.) Convém sublinhar apenas ter sido este discurso emitido por um senhor que a priori tem o mínimo do chamado bom senso

- Detesto gripes, fod****. Manda-me bué abaixo. 'Tás a ouvir? (...) A enfermeira Maria... Lá dentro. O cigano é que disse à gente. Ya, cortar o rabo de cavalo, o gajo. Olha quem é ele! Já não ligas aos pobres pá? Isto aqui é o cantinho da saudade pá? Senta aqui... Tudo bem? (...) É verdade, viva ao campeão. Ganhámos é o que interessa. Jogou da maneira suficiente para ganhar é o que interessa. Se jogou grande pequenino não interessa. Dá aí um cigarrinho dos teus, vamos lá para fora masé. (...) Porra, o Patrício não tinha hipótese nenhuma. Agora o Cassilas!


C.V. 11/03/16




quarta-feira, 9 de março de 2016

Por José Paulo do Carmo

"Os olhos brilham intensamente, a alma transpira emoções e eu sinto porque o coração começa a bater mais rápido e a necessidade de uma demonstração física vem ao de cima. Não basta um olá, um adeus ou um sorriso, por muito rasgado que ele seja. Preciso de te passar tudo aquilo que estou a sentir, a intensidade, o calor, para que não haja dúvidas. Não és uma pessoa qualquer, por isso mereces o que de melhor tenho, é a forma mais pura, humana e genuína que posso encontrar para simbolizar a alegria neste momento, a força das relações, o que de melhor tem um ser humano.

Acho que acabámos por perder na história a essência desta profundidade, chegar, olhar, sorrir, abrir os braços e passar emoções, mundo, encostar, fechar, sentir, dar e receber, transmitir, envolver e deixar ir. Vejo por aí muitos abraços sem vida, sem razão, sem respeito pelo gesto, coisa banal que se subjugou ao beijo e que se deixou ultrapassar pela frieza e egoísmo do premeditado, do formatado, do "porque sim"."


sexta-feira, 4 de março de 2016

O capítulo final (finalmente) e a revisão

Sobreviva quem souber, salve-se quem puder.

(...)

Ontem
- Felícia, ele tem outra
Hoje
- Felícia, ele tem outra
A subida do Camões que diz
- Felícia, ele tem outra
Até o maluco da Rua do Ouro
- Metes-te ao jeito... Olha no que deu. Oh dona, era mais que previsível que ele tinha outra
A Amália! (Deus lhe dê o merecido descanso) aos tombos, pobre defunta
- Sempre disse que havia muito espinho naquele florido todo. Vais pela estupefacção e deslumbramento inicial... Olha no que deu. O meu sexto sentido nunca falha!

(...)

1932, 14 de Setembro

Gosto de ti, mas ontem meteram-se uns assuntos por intermédio que me fizeram não ter tempo para te escrever.
O contabilista não dá uma para a caixa e ainda chamo eu àquilo um contabilista. Até a minha avó zarolha fazia figura mais bonita. Ai não! E depois o trânsito. E depois os travões que falharam. E depois uma amiga que demorou duas horas para me prestar auxílio. E depois o jantar como forma de compensação. Olha que fiquei bastante agradado, é uma boa companhia, sabe estar, sabe falar... Pareces tu. Mas eu gosto é de ti.

(...)

Gosto de ti. Garanto que gosto. Juro por tudo o que de mais sagrado existir que gosto de ti.

(...)

Quando cheguei a casa tinha o correio em cima da mesa e mal dei com os olhos no primeiro envelope a temperatura ambiente deve ter subido para lá de 10 graus. Ela não abriu mas ficou suspensa sobre o que a carta poderia conter. A verdade é que ela nem precisou de abrir e tu sabes o motivo. Aconteceu que vi-me entre a espada e a parede. Melhor ainda, entre o confortável e o desconhecido, sejamos honestos. Deixando-me só, obrigou-me
- Ou eu. Ou ela. Simples. Muito simples.
E a resposta tu também já sabes. Desculpa-me a cobardia.

(...)

Catarina Virgílio. A 4 de março de 2016


quinta-feira, 3 de março de 2016

Escondemos tanto que acabamos por revelar tudo. Sem querer. E era tudo o que menos queríamos. Que o outro soubesse, que o outro mantivesse aquela réstia de suspeita sempre presente. Jogamos com as pessoas como os reformados da minha aldeia jogam à sueca, como uma banalidade pertencente à rotina. Envolvemo-nos num círculo de lamentos (círculo de mentiras?) e a sinceridade já muda de nome
Ponto

C.V. 03/03/16

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Mas nenhum tempo mata a dor

O tempo passa. O tempo passa e a dor passa. Não passa mas espalha-se. Espalha-se por todo o corpo, espalha-se por todos os dias. A dor espalha-se. A dor não morre mas espalha-se. E o que está mais espalhado é menos intenso. Vale o mesmo mas é menos intenso. Como ter várias pequenas feridas suportáveis em vez de ter uma grande ferida insuportável. É isso que o tempo faz: espalha a dor. Ensina-nos a suportar a dor. A espalmá-la, a dividi-la. Mas nenhum tempo mata a dor.

Pedro Chagas Freitas, in Sexus Veritas

domingo, 14 de fevereiro de 2016

As Cartas sem Retorno e o Juízo Final

Quase tudo se passa em silêncio. Ainda hoje, quis levantar-se da mesa e em lugar de levantar-se aumentou-se no assento. E o desgosto, o desprezo, as mãos ora cruzadas ora sustendo o peso da cabeça. O que dói mais que um infeliz cruzar de dois destinos?
- Agora é que arranjaste a bonita. - pensou.
Se não a conhecesse diria que uma farda, uma espingarda e munições e estava pronta para a guerra. Pena tenho daquele que a encontrar e, ele que tenha, primeiro o impulso e automaticamente a seguir a perspicácia exigida para que quando o olhar dela o incidir ele se possa pôr a milhas dali.
Excluídas as hipóteses, era a última faceta dela que me faltava assistir. Não, não estávamos a jogar ao "Quem é quem?" e muito menos ao faz de conta. Garanto ter sido um caso sério... Bicudo até. De certo tinha acabado de dar férias a metade dos meus neurónios quando a abandonei. Fez dois anos na passada semana, setecentos e trinta dias sem que uma pequeníssima palavra lhe fosse dirigida. E aquela química invejável que possuíamos? Setecentos e trinta dias...
Contraído em divagações não participou do paulatino erigir de Felícia, que acabara de acercar-se da mesa corrida das bebidas e de um trago fazer escorrer até às entranhas um whisky duplo.
- Mecanismos de tortura que nos levam a ponteiros trabalhados em mostradores de porcelana. Tudo aparentemente estudado ao pormenor e, ainda assim, tão fraco, tão efémero. - dizia Felícia em monólogo à medida que passadas largas se estendiam pelo corredor central., - E não foram setecentos e trinta dias meu caro. Foi o teu retrato suspenso na parede do hall de entrada. Foram as poucas tonalidades de voz idênticas à tua que de quando em vez me via obrigada a escutar. Foi o procurar-te em todos os homens e nenhum deles seres tu. Foi o teu toque suave que todas as noites se evapora em mim. Foi a máquina de escrever que propositadamente encondeste na gaveta dos lençóis. Foram as setecentas e trinta cartas sem retorno.

15/02/16. C.V.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Agora é que lhe lembram as cacetadas...

Olha, não sei por onde começar. Muito menos sei se conheço o número mínimo de palavras para escrever alguma coisa que jeito tenha. Que se danem as frases bem feitinhas, essas pertencem-te por mérito. Lá o alemão, como é que o homem se chama? Ah sim, o tal Beethoven: "o prodigioso pianista". Ele um valente surdo e o pai um alcoólico potente, mas um...

(- Incontestável e exímio compositor!)- ecoa indignada.

indivíduo que rabisca umas notas de música às direitas. E eu um valente desgraçado e filho de um traste que nunca pus a vista em cima escrevei uma treta qualquer. Espera! Ofereceste-me p'lo natal aquele livro da conjugação dos verbos e trouxe-o para to deixar, anda lá ao pó e a capa já tem bolor. Ora veijamos...

Eu escreverei
Tu escreverás
Ele escreverá
Nós escreveremos
Vós escrevereis
Eles escreverão

Ah então é isso?! Desculpa, mais vale ficar quieto. Deves subir aos arames com estas cacetadas.

(- Agoram é que lhe lembram as cacetadas. Dava-lhas eu se o destino não se tivesse tornado um impostor.)

(...)


11/02/16. C.V.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Poupem-me as louvações. Poupem-me as comiserações. Poupem-me os discursos à cobrança cheios de adjetivos que simulam uma vitória nunca antes vista. Poupem-me as preocupações
- Eu avisei-te! Tantas vezes Catarina... Nunca quiseste ver.
Se me submeto ao ato de tornar isto público aos poucos que vão lendo estes pequenos textos vomitados é para que possam analisar por meio de uma perspetiva objetiva a gravidade de uma realidade tão deplorável e recorrente como esta. Sinto uma certa necessidade, necessidade essa provocada por preconceitos sociais e pelo desdém a que fui submetida durante uns incontornáveis três anos.
A princípio não tive os ditos "pés assentes na terra" para que pudesse reverter imediatamente a situação. Felizmente acordei a tempo. E é por aqueles que caem num sono profundo antes de tempo por causa desta doença que escrevo hoje. Não por mim, que todos os dias quis desistir, não pela pessoa que jamais outrora tivera algum tipo de ligação comigo e que curiosamente foi a única a não desistir do farrapo de pessoa que construí.
- Sempre mas enquanto precisares de mim...
As pessoas só são completamente verdadeiras quando são confrontadas com casos que lhes trazem subsistência, uns dinheiritos na conta bancária para os jantares e copos com os amigos e o bastante para sustentar a casa, o carro e o ego.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Embora façamos parte de um todo, de um conjunto, de uma espécie, somos incumbidos da árdua tarefa que é o desenvolvimento pessoal e intrínseco, contribuindo ainda para o progresso da espécie e do mundo.
É que tudo o que existe nos envolve e move, nos afecta e por isso projecta, nos consome e promove. O que seríamos afinal sem as nossas lutas diárias, o nascer e pôr do sol diário, o brotar das flores na primavera, o beijo de boa noite da mãe e o abraço sentido que nunca existiu do pai, a descoberta de uma estria recente, o filho que nasce, a mãe que morre por isso o beijo que já não existe, ou existe mas já não nos é permitido, o pai que tem uma doença terminal e assim já nos abraça freneticamente? A morte desperta, ou pelo menos a sua antecipação. O filho que cresce e abandona o ninho, o assinar dos papéis do divórcio, a casa vazia e a solidão que se instala, a primeira ruga e as hérnias discais... Eu e tu e todos nós que existimos e deixamos de existir como um fósforo que subitamente se apaga.
Tudo isto constitui o meio e tudo isto constitui a hereditariedade porque minha mãe faleceu de cancro no colo do útero e a probabilidade imensa, o desespero exacerbado. O resultado do exame que chega e uma impotência que não cessa, uma agonia desoladora, o médico que diz
- É hereditário...


sábado, 19 de setembro de 2015

Saio à rua e a vida começa. A rua de sempre, a avó que guincha com os netos de sempre, "deixa-me chegar a casa que já gramas". E gramava. Um choro amiúde soluçado que dói por nada poder fazer, a cólera da existência de uma mãe que não existe.
Existir é estar vivo. É afirmar presença em todas as ocasiões; é a audácia para prometer eu vou estar aqui quando mais precisares; é a imponência de um gesto carinhoso quando nada o prevê; é a beleza de um abraço que parece perpétuo.
No dia em que deixar de valorar tudo isto deixarei de ter completa noção do quão inverosímil é esta estadia.

domingo, 13 de setembro de 2015

Se te disser que nos vamos perdendo a contar o tempo?
Estendo-me no chão e bastam-me as memórias e as palavras que escrevo. São as únicas dádivas intemporais que me mantêm viva.
E se te disser que nos vamos perdendo a cada palavra insensata?
Tento perceber onde está o motivo para a existência de um vazio tão doloroso como este.
Digo-te que nos vamos perdendo a cada linha que concebo e a cada momento lúcido que me invade.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Escrito a 03-05-2013

Nosce te ipsum.

Estou cansada de procurar palavras para expressar o que se passa cá dentro- aqui, onde se fomenta uma mescla infindável de sentimentos,- e nenhuma delas me servir.
Escrevo, apago, torno a escrever. Nada. Não há sintonia entre as palavras, não existe coesão.
Encontro-me num lugar onde a palavra desespero predomina. Choca-me a quantidade de pessoas que pairam por aqui, sem eira nem beira.
E repentinamente mudo de cenário. Sou surpreendida pelo som ensurdecedor do altifalante. Gritava qualquer coisa como "C.A., g.4". Levanto-me com uma vontade enorme de chorar, tal não era a tensão que se gerava ali dentro. De facto chorei, mas interiormente, como é habitual.
Abri a porta que dava acesso ao corredor e percorri a ala com o olhar, na esperança de constatar todos os números excepto o bem dito número 4. Ironia do destino, ou lá o que isso seja, o primeiro gabinete que os meus olhos cruzaram era o que me estava predestinado.
Entrei e limitei-me a sentar. As minhas mãos tremiam, os meus pés e as minhas pernas também. Acho que tudo em mim tremeu nesse momento. Desconheço o porquê de tal coisa, não tinha nada a temer. Ou será que tinha?
Pensei que me tinha enganado no cubículo. Saí e voltei a entrar, estava realmente no espaço que deveria determinar todo um percurso árduo e rigoroso na minha vida.
Segundos passados apareceu aquela senhora bem parecida que me intitula "a peste", que de todo tem um sentido depreciativo. Muito pouco se passou lá dentro. Uma conversa banal, aquele instante que prevê um sorriso partilhado e a tristeza que sobressai da minha expressão, a lembrança de que
- Isso não chega
e eu desejosa que aquela conversa acabasse
- Pois
palavra inútil que repito inesgotavelmente.
E assim pus término à conversa e me vim embora, depois de ela me ter presenteado com um dos seus beijinhos e um abraço que me enalteceu e aconchegou o coração.

sábado, 6 de junho de 2015

António Lobo Antunes, in "O Quinto Livro de Crónicas"

"(...) e não tenho o que secretamente ansiava, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta
- E agora?
sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho (...)"


quinta-feira, 30 de abril de 2015

De que me serve viver se não te tiver para amar?

De que me serve viver se não te tiver para amar?
Ontem fui ao cinema. A sala vazia, o lugar no canto superior esquerdo que outrora ocupaste vazio, a minha mão vazia, a minha alma vazia. Sentei-me no lugar de sempre, com o espírito de sempre, tão vergastado, tão dolorido que tu nunca deste por isso. Fui invadida por uma nostalgia que ocupou todo o espaço envolvente. Era assim que me sentia quando podia empregar em nós a palavra amor, que a nossa felicidade transbordava para lá do limiar do que é ser feliz. Sou tão absurda, tão idiota por te desejar assim.
Vem, limpei a tua cadeira dos nossos preconceitos. Vamos amar o mundo, descobrir a que sabe a paixão, articular os nossos corpos por entre os lençóis já fartos de tantos amassos e beijos ardentes. Vamos, ambos os dois, para que o único erro que exista seja o da sintaxe.




quinta-feira, 16 de abril de 2015

Laivos de um possível capítulo...

Passava das oito da noite quando o pôr do sol findou. Felícia andara todo o dia absorta nos afazeres de casa. Curiosamente, cuidar de casa era das tarefas que mais gostava, no entanto não tinha outro remédio. Amália, de seu nome, e sua irmã de parentesco, cingia-se à tentativa de levar uma vida boémia e tratava de elevar o seu estatuto social a algo que lhe era impossível. Deste modo, para todos os efeitos Felícia acabava os seus dias sem pôr a vista na irmã e de quando em vez suspirava:
- Aquela vadia! A mãe haveria de se orgulhar muito dela!
Tinha um certo desamparo pela irmã e indubitavelmente se orgulhava de não se ter tornado como ela.
Dados os últimos retoques à cozinha, Felícia veio sentar-se na poltrona que se encontrava à entrada da sala de estar. O seu ar acabrunhado tingia um aspecto pálido na sua face e as mãos que acabou então por cruzar perscrutavam como que uma lembrança quase apagada. Subitamente ecoa um telintar que se estende pelo vazio, o telefone de casa tocava. Num gesto pachorrento, "a dona de casa" ergueu-se para ver de quem se tratava.
- Estou?
A voz que se ouvia do outro lado, de índole rouca e trémula, murmurava
- Sou eu menina.
- Que se passa? Que me queres?
Felícia não se encontrava com grande temperamento para conversas, o dia fora demasiado longo e a sua cabeça sufocava de tanta dor.
- Hoje de manhã quis fazer chegar-te uma carta. Pelo decorrer do dia apercebi-me de que essa carta não te tinha chegado, caso contrário terias entrado em contacto comigo.
- O que dizia essa tal carta?
- Vou ler-te o duplicado que trouxe comigo. Sim, tive o descernimento de fazer uma cópia para que possa recordar eternamente a mágoa e sofrimento que te vai consumir e degradar daqui por diante. Enfim, sempre fui uma criatura muito estranha, carrego uma mente repleta de interrogações e hoje, indesculpavelmente, vou transpô-las para ti.

Quando tiveres lido esta carta eu já estarei do outro lado do oceano. 
É uma fatalidade. irreparável e profundamente dolorosa.
Peço-te que, apesar de tudo, guardes os bons momentos que passámos e que todas as noites guardes um espacinho na tua cama e aí me recolhas e embales, bem junto do teu coração. 
Sei que o meu querer não é tudo mas hoje eu queria ter-te aqui comigo para sempre. Espero que compreendas.

Com amor,
o teu pequeno.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Nem tudo acaba no fim...

"A noite cessara, deixando um golpe duro e frígido na superfície da secretária. E no meu coração."
Por hoje termino. Todos os dias termino e nenhum deles finda como eu gostaría: contigo.
Recordo não sei por que motivo a voz de minha mãe, as suas palavras, o cheiro a flor de laranjeira, da qual fazia chá para os nervos. Também com ela fui acostumada a sentir tudo e não poder dar nada. Agora, apenas consigo acariciá-la de permeio de um pequeno e ignóbil vidro, encaixe numa moldura com traços arcaicos. Que belo semblante tinha, que expressão sumptuosa, qual olhar triste que fixa em mim neste momento.
- Ninguém teve culpa. Não ficaram remorsos. Só subsiste um lugar oco na minha alma, no quarto que lhe era destinado, na posição na mesa de jantar que ninguém ocupa, no diminuto espaço que fica entre um abraço, aquele abraço que nunca lhe dei, minha mãe.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Cá está ele, lido e relido... Restou apenas a mágoa da inexistência da sua continuidade.




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? (excerto), de António Lobo Antunes

nunca vi uma pessoa ocupar tão pouco espaço como ele nessa tarde à medida que fragmentos indecisos principiavam a unir-se em mim, membranas transparentes e essa espécie de lágrimas que nos acompanham toda a vida, algumas vezes nas pálpebras mas a maior parte do tempo ocultas de nós, numa das pregas de desconsolo de que somos feitos, se conseguisse contar-vos, e não consigo, o que nos rói sem sabermos, o que custa sem darmos fé omitindo os segredos estrangulados e as misérias conscientes, tanta boneca falecida, tantos olhos só nossos que nos censuram
- Porquê?
a minha mãe
- O que se passa contigo?
mentir
- Não se passa nada garanto
quando se passa tudo mãe, não insista nem me dê atenção, casei com o meu marido não foi e anulei as nódoas sem anular os cavalos, aí estão eles a atazanarem-me, não esclareço isto bem porque as palavras avançam depressa e o papel não chega, eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me e a afogar num tanque os gatinhos para se desembaraçar de mim, casei com o meu marido e depois do veterinário e do cão cada qual na sua ponta de sofá que ia alargando, alargando, nem aos berros nos ouvíamos, nem juntos nos enxergávamos, nem perto se conhecia o outro
(...)
vi-o entrar no carro, vi-o a ver-me demorando a entrar, esperei um gesto e gesto algum, um braço que acenasse, a bandeirola de um sorriso a desistir, o
- Gosto de ti
apagou-se numa espiralzinha, o que eu não dava para o escutar, se o meu pai gostasse de mim pode ser que eu mais ou menos no apartamento cheio de pregos nas paredes em lugar de quadros e um retrato nosso na quinta
(...)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Instantes perpétuos

Trago o gesto de quem não quer subsistir
como um barco que se afasta do seu cais,
por permanecer enfim alheio aos demais,
travando-se com a mágoa do porvir.

De índole incoerente e fatídica,
passeio pelas horas ásperas,
todas tão cheias de recordações nefastas...

terça-feira, 13 de maio de 2014

As Sete Penas do Amor Errante, Manuel Alegre

Eu não sei se os teus olhos se gaivotas
mas era o mar e a Índia já perdida
as ilhas e o azul o longe e as rotas
minha vida em pedaços repartida.

Eu não sei se o teu rosto se um navio
mas era o Tejo a mágoa a brisa o cais
meu amor a partir-se à beira-rio
em uma nau chamada nunca mais.

Eu não sei se os teus dedos se as amarras
mas era algo que partia e que
ficava. Ou talvez cordas de guitarras
ó meu amor de embarque desembarque.

Eu não sei se era amor ou se loucura
mas era ainda o verbo descobrir
ó meu amor de risco e de aventura
não sei se Ceuta ou Alcácer Quibir.

Eu não sei se era perto se distante
mas era ainda o mar desconhecido
ou Camões a penar por Violante
as sete penas do amor proibido.

Eu não sei se ventura se castigo
mas era ainda o sangue e a memória
talvez o último cantar de amigo
amor de perdição amor de glória.

Eu não sei se teu corpo se meu chão
mas era ainda a terra e o mar. E em cada
teu gesto a grande peregrinação
das sete penas do amor lusíada.


Manuel Alegre, Atlântico

sábado, 5 de abril de 2014

Seja o futuro emenda do passado, e o que há-de ser, satisfação do que foi. (Padre António Vieira)

Pergunta-me insistentemente:
- Como é que tudo aconteceu?
- As coisas acontecem, sabe? É como num livro. Neste caso, o livro da vida. Inicia-se com letra maiúscula- ou pelo menos deveria ser de tal modo-, as palavras fluem, vigorosas e coerentes. Estas, criam em quem as lê toda uma sensibilidade para com a narrativa. Por vezes, sinto mais do que o que sei exprimir e isso nota-se aquando da transposição para o papel.
- E o que tem isso a ver para o caso?
- Tem tudo. E ao mesmo tempo não tem nada.
Não sei se ela iria conseguir perceber, mas também sempre fui muito vaga nas nossas conversas. Creio que, de facto, nem eu conseguiria perceber. Por isso esperava que ela caminhasse de encontro ao busílis da questão. Olhou-me com expressão aborrecida e disse:
- Lá estás tu com as tuas contradições... Já reparaste que desde que te sentaste nessa cadeira não disseste nada de concreto? Assim não te consigo ajudar, não consigo chegar até ti.
- Nada mais tenho a proferir. São estas as palavras que tenho para lhe oferecer.
- Ah, estou a ver que és pessoa de uma extrema generosidade!
Surge então aquele sorriso a tender para a ironia, desvanecendo-se por entre a corrente de ar que se fazia sentir naquele espaço diminuto. Os seus braços cruzaram. Fez-se sentir o silêncio que previa algumas palavras minhas, contudo, já tinha anunciado o desfecho do discurso.
Ciente da agitação mental que me estava a provocar aquela conversa tão cuidadosamente conduzida, estudada até ao mais ínfimo pormenor, ela desfez o cruzar dos braços e debruçando-se sobre o teclado daquele pachorrento computador redigiu qualquer coisa que não vi nem nunca verei.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

João Tordo apresenta o seu último romance, com um remate em Si bemol (Por Sandra Gonçalves)


  • João Tordo lançou na quinta-feira, na Fundação José Saramago, o seu último romance, «Biografia involuntária dos amantes», que assinala a sua estreia na editora Alfaguara. A apresentação esteve a cargo do escritor José Eduardo Agualusa. Perante um anfiteatro todo ele afecto, com familiares, amigos e fãs, contou que este livro, o sétimo já editado, é «uma tentativa de compor identidades; tem um lado orgânico».
«Biografia involuntária dos amantes» passa-se numa estrada adormecida da Galiza. Dois homens atropelam um javali. A visão do animal morto na estrada levará um deles – Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano – a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem – um professor universitário divorciado – irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris.
À plateia, João Tordo contou que alterou a sua rotina ao compor este romance. O livro «foi mudando de dia para dia, não o planeei e descobri que sou muito mais livre quando as personagens falam por si, e sem haver uma mecânica no enredo».
Esta é uma obra que resulta de partilhas e cumplicidades; a história do javali foi-lhe contada por um amigo, o poeta mexicano conheceu-o no Canadá em 2012, o professor universitário é inspirado no escritor galego Carlos Quiroga, e Teresa, personagem principal do livro, é inspirada na sua mãe.

«É interessante escrever assim, leva-nos a um confronto com a nossa própria vida», enfatizou, para, de seguida, acrescentar que este romance «joga com reconhecimentos»; descobriu, ao compô-lo, que sozinho não consegue fazer nada.
No dia em que o Benfica preparava-se para defrontar o AZ Alkmaar na Holanda (João Tordo é um ferrenho benfiquista), temia-se que a sala estivesse vazia. Pelo contrário. Mas em várias ocasiões brincou-se sobre isso.
Voltando ao livro, o escritor, que venceu o Prémio Literário José Saramago com «As três vidas» (2008) – pelo que o facto de a apresentação ter ocorrido na Fundação Saramago ter conferido um relevo especial ao evento –, assumiu que inconscientemente acaba por «fazer a migração de personagens de livro para livro», mas que neste «Biografia involuntária dos amantes» conseguiu «fechar personagens e ciclos».
Porém, se ao longo de toda a obra deixou que a história fluísse alheado da sua vontade, sem um motor, o final reescreveu-o muitas vezes. Não queria que tivesse um desfecho «grave nem muito agudo», assumiu. «É um final em Si bemol, como uma sinfonia de Beethoven.»
Confessou ainda que tem um alter-ego que transporta para o seu trabalho e que é através dele que se diverte a fazer jogos. «Gosto de divertir-me no trabalho», disse a rir.
João Tordo confidenciou que este romance «foi muito pacificador, veio de um lado muito sincero». Quando o terminou, revelou, sentiu-se perfeito, por que o ajudou a aceitar todas as suas imperfeições. «Abdiquei do controlo. Soube perder. E isto é muito bom, muito pacificador.»
No final da apresentação, a plateia foi surpreendida com uma intervenção imprevista; um primor. Pilar del Río juntou-se ao evento para dar os parabéns a João Tordo, desejou a todos os presentes «uma boa travessia» e fez questão de frisar que aquela casa, a Fundação José Saramago, «estará sempre aberta a todos».

terça-feira, 25 de março de 2014

José Saramago- Excerto da obra "Claraboia"

Algumas vezes, desde que começara a viver livremente, Abel perguntara a si mesmo: "Para quê?" A resposta era sempre igual e também a mais cómoda: "Para nada." E se o pensamento insistia: "Não é nada. Assim não vale a pena", acrescentava: "Deixo-me ir. Isto há de ir dar a algum lado."
Bem via que "isto", a sua vida, não ia dar a parte alguma, que procedia como os avarentos que amontoam o ouro só para terem o prazer de o contemplar. No seu caso não se tratava de ouro, mas de experiência, único proveito da sua vida. Contudo, a experiências, não sendo aplicada, é como o ouro imobilizado: não produz, não rende, é inútil. E de nada vale a um homem acumular experiência como se colecionasse selos.
As suas poucas e mal assimiladas leituras de filosofia, ao acaso dos compêndios escolares e das brochuras desenterradas da poeira dos alfarrabistas da Calçada do Combro, permitiam-lhe pensar e dizer que desejava conhecer o sentido oculto da vida. Mas nos dias de desencantamento da sua existência, já lhe acontecera reconhecer que semelhante desejo era uma utopia e que as experiências multiplicadas apenas serviam para tornar mais denso o véu que pretendia afastar. A falta de sentido concreto da sua vida forçava-o, porém, a firmar-se naquele desejo que já deixara de o ser, para se transformar numa razão de viver tão boa ou tão má como qualquer outra.

domingo, 23 de março de 2014

Posso ficar aqui,
se entenderes que deva.
Posso ficar aqui,
com todas as portas e janelas cerradas
que me engaiolam.
Sucumbir ao desespero
de todos estes olhares tristes,
tão tristes, tão apagados,
que me falam sem que os oiça.
Chegam de expressão lastimável
e caminham lentamente para o abismo,
sem a consciência de que tudo isto
e o mais que possam pensar em paralelo
se reduz à ilusão que têm vindo a construir.
Entre esperas incontornáveis,
conversas que apaziguam o medo,
vozes audíveis mas que não têm a quem pertencer
se as tento encontrar,
a porta entre a suposição e a verdade
admite passagem aos moribundos.
O que se passa para além desta porta
é uma incógnita,
apenas vejo que saem mais depressa do que entram...

Por vezes dou por mim a pensar
se algum dia,
algum deles,
sairá, de facto...

Sinto uma aflição aterradora por esta gente toda,
e talvez por mim,
que aqui estou também.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Corrompo amiúde
esta tarefa prosaica
que é a vida
criando protuberâncias
na claridade do sonho,
porque sonhar
é permitir à alma que invada a mente,
é viajar além do real,
é a indigência de conhecimento,
que faz do Homem
um ser imperecível
na sua plenitude.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Inês Pedrosa- O êxodo

Partir depressa. A frase que mais ouço aos adolescentes próximos. Repito-lhes que não é assim, que a felicidade é possível nesta terra. As minhas palavras estão todas erradas: a felicidade não lhes interessa, a repetição não os demove, os nãos dos mais velhos cheiram ao ranço do paternalismo. Move-os o sonho de iluminar as coisas. E todos os dias são fustigados por exortações à mediocridade bem organizada.
Estive com alunos de uma escola secundária de Vila do Conde e pedi-lhes que não desistissem da língua portuguesa. Atingiram o décimo ano de escolaridade e não lhes ocorre um só escritor português de que gostem. Ou de que, pelo menos, não gostem. Desconhecem.
«Não gosto d'Os Maias!» aventurou-se um, lá de trás, protegido pelas cabeças prontamente concordantes dos outros. Disse-lhes que saltassem as páginas de introdução e mergulhassem na história. Prometi-lhes que, se o fizessem, iriam gostar. Olharam-me com pena. O mesmo olhar que me devolvem os adolescentes mais próximos, aquele olhar que diz: «és tão ingénua, tu; habituaste-te, coitada; acreditas no futuro deste país, na salvação através da palavra e no amor eterno. O destino te proteja, que nós não vamos ficar aqui, à espera de contar côdeas quando formos velhinhos, mancando a caminho das repartições de Finanças com papéis na mão a perguntar, se faz favor, se não houve um enganozinho».
(...)

Disponível em http://sol.sapo.pt/inicio/Opiniao/interior.aspx?content_id=100604&opiniao=Opini%E3o

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

27-02-14

Dois corpos que se unem
na edificação de um amor absoluto,
fogo que arde eternamente,
vida que te estendes,
alma dilacerada
que dei de mim
só de mim e mais nada!
para que pudesses sentir o sal dos mares
e permanecêssemos imunes a esta vela apagada.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

José Saramago- Sobre Fernando Pessoa

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

Disponível em http://caderno.josesaramago.org/2008/10/?page=4

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Almeida Garrett

O Álbum 

Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Novo livro de João Tordo é editado em Abril pela Alfaguara


O novo romance de João Tordo, "Biografia involuntária dos amantes", será editado em Abril pela Alfaguara, editora que passará a publicar a obra do escritor, foi hoje divulgado em comunicado.

"João Tordo, vencedor do Prémio José Saramago e um dos mais relevantes nomes da literatura portuguesa contemporânea, junta-se a um jovem mas cuidado catálogo de ficção literária, em que se destacam autores portugueses como Afonso Cruz, Ricardo Adolfo e Valter Hugo Mãe", afirma a Alfaguara em comunicado enviado à Lusa.
"Biografia involuntária dos amantes" é o sétimo romance de João Tordo que, em finais do mês passado ,disse à agência Lusa ser este o seu "livro mais conseguido".

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Fernando Namora

A Mais Bela Noite do Mundo

Hoje, 
será o fim! 

Hoje 
nem este falso silêncio 
dos meus gestos malogrados 
debruçando-se 
sobre os meus ombros nus 
e esmagados! 

Nem o luar, pano baço de cenário velho, 
escutando 
a minha prisão de viver 
a lição que me ditavam: 
- Menino! acende uma vela na tua vida, 
que o sol, a luz e o ar 
são perfumes de pecado. 
Tem braços longos e tentadores – o dia! 

- Menino! recolhe-te na sombra do meu regaço 
que teus pés 
são feitos de barro e cansaço! 

(Era esta a voz do papão 
pintado de belo 
na máscara de papelão). 

Eram inúteis e magoadas as noites da minha rua... 
Noites de lua 
que lembravam as grilhetas 
da minha vida parada. 

- Amanhã, 
terás os mestres, as aulas, os amigos e os livros 
e o espectáculo da morgue 
morando durante dias 
nos teus sentidos gorados. 

Amanhã, 
será o ultrapassar outra curva 
no teu caminho destinado. 

(Era esta a voz do papão 
que acendia a vela, tinha regaço de sombra 
e velava 
as noites da minha rua e a minha vida 
e pintava-se de belo 
na máscara de papelão). 

Hoje, 
será o fim! 

Hoje, 
nem a sombra do que há-de vir, 
nem os mestres, nem os amigos, nem os livros, 
nem a fragilidade dos meus pés 
feitos de barro e cansaço! 
Todas as minhas revoltas domadas, 
todos os meus gestos em meio 
e as minhas palavras sufocadas 
terão a sua hora de viver e amar! 

Hoje, 
nem o cadáver a sorrir na morgue, 
nem as mãos que ficaram angustiosas, 
arrepiadas 
no seu medo de findar! 

Hoje, 
será a mais bela noite do mundo! 

Fernando Namora, in 'Mar de Sargaços'

domingo, 26 de janeiro de 2014

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor, 
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus. 

Eugénio de Andrade, em Poesia e Prosa